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Por Laudelino Jochem 

Presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Paraná

A crise que que o mundo atravessa atualmente é uma das maiores de toda a história, em razão da dimensão global da pandemia e do gigantesco número de pessoas atingidas, não apenas pela covid-19, mas pelas dificuldades econômicas e sociais decorrentes das medidas necessárias para conter a disseminação do novo coronavírus.

No Brasil, a polarização política e a falta de uma ação coordenada dos entes federativos sobre que medidas tomar, que recursos mobilizar, como conscientizar a população e o que fazer para proteger os mais vulneráveis só agrava a situação, resultando em recordes diários de perdas humanas e falta de perspectiva para uma retomada consistente da atividade econômica, a fim de proteger e recuperar empregos.

Nesse contexto, os profissionais da contabilidade, que desde meados da década de 1980, têm testemunhado incríveis transformações e suas normas e métodos de trabalho, veem-se mais uma vez em uma posição que os obriga a se reinventarem. Mal tiveram tempo de compreender e se adaptar à era da transformação digital, e já são demandados a se tornarem profissionais da contabilidade 4.0.

Especialistas de diversos setores econômicos e da Academia têm chamado consistentemente a atenção para o fato de que a pandemia antecipou um futuro que as tecnologias exponenciais já vinham desenhando para os negócios, o consumidor e as formas de conviver, trabalhar e inovar. Segundo eles, a humanidade vive hoje no Mundo VUCA – acrônimo dos termos volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em que a única certeza que se pode ter é que tudo muda. O termo foi cunhado na década de 1990, no período pós-Guerra Fria, em referência à intrincada e instável situação geopolítica mundial à época. No final da primeira década do novo milênio, o termo foi incorporado ao vocabulário do ambiente de negócios, com as incertezas trazidas pela crise financeira global desencadeada em 2007 pela falência do tradicional banco de investimentos Lehman Brothers, nos Estados Unidos, e mais recentemente passou a ser usado também para definir o caráter efêmero do tecido socioeconômico do mundo atual, com mudanças ditadas a todo instante pelo frenético compasso das tecnologias emergentes.

Bem no meio desse turbilhão de mudanças encontra-se o profissional da contabilidade, que precisa absorver e processar com a máxima rapidez todas essas novidades, para manter a confiabilidade das informações e dados que produz e processa em suas atividades diárias voltadas à prestação de contas das empresas e instituições aos governos e à sociedade e ao suporte na tomada de decisões estratégicas pelas empresas.

Sócrates, filósofo da Grécia Antiga, que viveu há quase 2.500 anos, já ensinava que “o segredo da mudança é não focar toda sua energia em lutar com o passado, mas em construir o novo.”

Para sobreviver e ter sucesso nesse cenário completamente fugaz, é necessário, portanto, que o profissional da contabilidade se posicione de maneira proativa na busca por competências que vão muito além do tradicional conhecimento técnico. É preciso mergulhar de cabeça em formações voltadas para a compreensão e utilização estratégica da inteligência artificial para mecanizar tarefas repetitivas, reduzir custos, e controlar processos; além de entender o que é Big Data e aprender a garimpar informações estratégicas dentro dos gigantescos bancos de dados com os quais se vê impelido a lidar todos os dias, que possam se transformar em valor agregado para os negócios de sua empresa e clientes.  

É preciso compreender ainda que a tecnologia só vai assegurar o benefício esperado aprendendo-se usá-la para interagir com os processos inerentemente humanos. Compreender, portanto, que a grande e primordial mudança deve acontecer prioritariamente na área comportamental: é premente a necessidade de incorporar no meio contábil a cultura da constante inovação e adaptação de processos e modelos de negócios. Esta nova postura, do Profissional Contábil 4.0, é fundamental para quem quer ter sucesso no jogo da sobrevivência, e se refere à adoção de práticas que incentivem o trabalho colaborativo e descentralização, o estímulo constante para que funcionários, clientes e fornecedores contribuam de modo contínuo com a gestão e a inovação dos processos, o uso inteligente e responsável de dados, buscando sempre as mais atuais ferramentas de acompanhamento e análise. É indispensável cultivar o hábito de promover a atualização constante para si mesmo e para todos os envolvidos nos processos da empresa e adotar práticas que incentivem a criatividade e ousadia, tendo consciência de que no contexto atual, errar e recomeçar é menos arriscado do que não tentar.

Para quem prefere usar a crise para justificar suas próprias limitações e continuar pensando que somente as grandes empresas de tecnologia do segmento possuem capital para inovar, há que se destacar que muitas das revoluções dos tempos atuais começaram dentro de garagens e que provavelmente o leitor está fazendo uso de uma delas neste exato momento para ter acesso a este artigo. Se o mundo mudou, que nenhum profissional contábil desperdice mais o próprio e escasso tempo tentando voltar a trabalhar como se fazia antes da pandemia.

Finalmente, ser um profissional da contabilidade 4.0 requer ainda posturas empresariais criativas, que garantam a sustentabilidade das empresas a longo prazo, mantendo os negócios alinhados às questões sociais, e não apenas financeiras, pensando em sustentabilidade em um sentido mais amplo, e não apenas em manter o próprio negócio lucrativo, tendo consciência das próprias limitações, para poder superá-las, praticando a empatia em relação à realidade dos outros, e procurando alcançar os resultados a partir da construção de relacionamentos de confiança com funcionários, chefias, clientes, fornecedores, e demais stakeholders, alcançando, enfim, benefícios para todos.

A crise do presente consolidou a percepção de que os profissionais da contabilidade são essenciais para o funcionamento da economia e da sociedade hoje, mas trouxe também a certeza de que só a mudança constante vai assegurar que continuemos sendo essenciais no amanhã.

Neste 25 de abril de 2021, Dia do Profissional da Contabilidade, mais do que parabenizar a classe contábil pelas significativas conquistas do presente, o que se está propondo neste artigo é esta importante e urgente reflexão sobre o futuro da profissão.

Referências:

https://hsmuniversity.com.br/blog/mundo-vuca/

https://www.blend-edu.com/conceito-mundo-vuca-e-impactos-na-gestao-de-pessoas/

http://blogunigranead.com/cursos-livres/inovacao-5-tecnologias-mudaram-mundo/

https://www.unasp.br/blog/crises-e-oportunidades-para-inovacao-na-carreira/

https://www.istoedinheiro.com.br/a-era-da-inovacao-acelerada-pela-crise-global/

https://nucleos.fdc.org.br/wp-content/uploads/2020/05/Innovation_Insights.pdf

https://blog.simplez.com.br/o-desafio-de-inovar-em-tempos-de-crise-8-casos-inspiradores/

https://endeavor.org.br/estrategia-e-gestao/razoes-comandar-crise/

https://nationalgeographic.pt/historia/actualidade/1373-as-dez-inovacoes-mais-importantes-da-historia-moderna



Reprodução permitida, desde que citada a fonte.