Tecnologia desbanca práticas manuais na contabilidade, mostra estudo com contadores paranaenses
"Computadores, NF-e, SPED, assinaturas digitais e softwares em nuvem já fazem parte do dia a dia de escritórios contábeis, mas como esse conjunto tecnológico vem mudando o jeito de trabalhar e de entender a profissão? Esta discussão orienta a pesquisa de Bruna Luza, Tamara Gonçalves Falconi e Franciele Wrubel, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), publicada na RC&C Revista de Contabilidade e Controladoria. Com base em entrevistas realizadas em 2024 com contadores do Paraná que atuam há mais de dez anos, o estudo analisa a passagem de rotinas manuais para processos digitais sob a ótica da teoria institucional e mostra que essas mudanças vão além da troca de ferramentas, pois alteram padrões consolidados e trazem novas exigências de qualificação. O trabalho ajuda a entender por que muitos profissionais se sentem pressionados a acompanhar softwares, sistemas públicos e clientes cada vez mais digitais.
Os autores partem da ideia de que tecnologias digitais funcionam como elementos que desestabilizam o modo tradicional de registrar, organizar e enviar informações contábeis. A partir da teoria institucional, a contabilidade é tratada como um campo em que regras, normas e hábitos são construídos ao longo do tempo e passam a orientar o que é visto como aceitável ou legítimo. Nesse cenário, livros em papel, lançamentos manuais e calculadoras com bobina, muito presentes no início da trajetória dos entrevistados, cedem espaço a escrituração eletrônica, importação automática de dados bancários e sistemas de gestão mais conectados, processo que modifica rotinas e redefine o que é tomado como prática ‘normal’ na área.
Para captar essas mudanças, a pesquisa utiliza abordagem qualitativa e descritiva, com entrevistas semiestruturadas baseadas em roteiro validado por especialistas. A amostra reúne cinco contadores que atuam em diferentes segmentos no estado do Paraná, todos com experiência superior a dez anos, selecionados por critérios ligados ao tema e à facilidade de contato. As conversas, presenciais e on-line, foram gravadas, transcritas e examinadas por análise de conteúdo com apoio do software Atlas.ti, gerando um conjunto de doze códigos relacionados a tópicos como evolução da contabilidade, pressões externas, desafios, benefícios, riscos e expectativas para o futuro. Registros e documentos dos escritórios complementam o material, em uma estratégia de triangulação que confronta falas e práticas.
Os depoimentos mostram uma mudança nítida de cenário ao longo da carreira dos participantes. No início, máquinas de escrever, livros contábeis encadernados, blocos de notas fiscais e lançamentos linha a linha em sistemas simples ocupavam boa parte do tempo de trabalho. Com o avanço de softwares especializados, nota fiscal eletrônica, SPED e certificados digitais, atividades operacionais passaram a ser automatizadas, permitindo importação de extratos, geração de arquivos e envio de declarações em poucos cliques. Na avaliação dos entrevistados, esse movimento reduz retrabalho, diminui erros de digitação e libera tempo para que o contador se aproxime de tarefas ligadas à orientação dos clientes e à análise de informações.
Os profissionais destacam ganhos associados à agilidade, à precisão das informações e a maior segurança na guarda de dados, além de redução de papel e de atividades repetitivas. Ao mesmo tempo, apontam obstáculos: falta de tempo para estudar novas soluções, necessidade de acompanhar atualizações de sistemas e de legislação, dificuldade de alguns clientes em adotar rotinas digitais e postura conservadora de parte da categoria, que prefere manter formas antigas de trabalho. Entre os riscos citados estão a dependência da internet e de fornecedores de tecnologia, a possibilidade de se acomodar e confiar demais em processos automáticos, a preocupação com sigilo e proteção de dados e o receio de que profissionais que não se atualizam acabem perdendo espaço no mercado.
Na leitura das autoras, a adoção de tecnologias contábeis é empurrada principalmente por duas fontes de pressão. De um lado, as falas mostram o peso de exigências legais e fiscais, como prazos e formatos definidos pela Receita Federal e por outros órgãos públicos, que condicionam a entrega de obrigações a sistemas eletrônicos. De outro, a competição entre escritórios leva contadores a buscar ferramentas semelhantes às dos concorrentes para não parecerem atrasados diante dos clientes. Esses achados são interpretados pela teoria institucional como presença marcante de pressões coercitivas, ligadas às normas do fisco, e miméticas, associadas à imitação de práticas vistas como bem-sucedidas no mercado, enquanto pressões normativas, ligadas à formação e à atuação de grupos profissionais, aparecem com muito menos força. Em conjunto, esses mecanismos ajudam a explicar por que práticas como livros físicos e lançamentos manuais foram sendo abandonadas e substituídas por rotinas eletrônicas.
O estudo conclui que as tecnologias digitais funcionam como agentes de desinstitucionalização no campo contábil, já que colocam em causa rotinas tidas como naturais e abrem espaço para novos arranjos de trabalho. Ao mesmo tempo, o material empírico indica que muitos escritórios reagem às exigências de sistemas públicos e softwares de maneira reativa, motivados por prazos legais e pela observação de concorrentes mais adiantados, e não por projetos planejados de revisão de processos e desenvolvimento de competências. As autoras sugerem que contadores, escritórios e cursos de graduação levem essas evidências em conta ao organizar ações de formação, adotando postura mais ativa diante das mudanças tecnológicas, tanto no uso de sistemas quanto na combinação entre habilidades técnicas, de gestão e de relacionamento com clientes."
Bruna Luza – brunaluza1d@gmail.com
Tamara Gonçalves Falconi – tamaragoncalvess@gmail.com
Vista do Evolução e Inovação Tecnológica na Contabilidade Sob a Ótica da Teoria Institucional
As informações e opiniões manifestadas nesta página são de inteira responsabilidade dos autores, e não necessariamente refletem posições do CRCPR ou são endossadas pela entidade.
Reprodução permitida, desde que citada a fonte.