Qualidade do lucro de empresas pares influencia o risco de mercado das companhias brasileiras?
"Um estudo publicado em 2025 na Revista Contabilidade & Finanças da USP analisou se a qualidade dos lucros divulgados por empresas de um mesmo setor transborda e afeta o risco sistemático de companhias abertas no Brasil. Assinado por Vanessa Rodrigues dos Santos Cardoso, Rodrigo de Souza Gonçalves, Paulo Vitor Souza de Souza e Paulo Augusto Pettenuzzo de Britto, o artigo investiga se informações contábeis de empresas consideradas pares, classificadas por setor econômico, contribuem na explicação do comportamento do beta de mercado das ações negociadas na B3.
A motivação central do trabalho está na ideia de efeito spillover, expressão adotada na literatura quando decisões ou características de uma empresa alcançam outras companhias ligadas economicamente. No campo contábil, esse fenômeno aparece quando divulgações de resultado de uma firma influenciam a avaliação de empresas do mesmo setor por analistas e investidores. Os autores partem do argumento de que a capacidade de acompanhar inúmeras companhias de forma detalhada é limitada; nessa lógica, relatórios de uma empresa podem funcionar como atalho informacional na avaliação de seus pares e afetar custo de capital e risco de mercado em cadeia.
O estudo estima modelos em painel com dados anuais de 2010 a 2022, envolvendo empresas listadas na B3, exceto o setor financeiro, o grupo classificado como “outros” e segmentos com apenas uma companhia. A amostra é organizada em dois recortes setoriais, um baseado na classificação da própria B3, com 191 empresas, e outro na taxonomia da base Economatica, com 159 empresas. A qualidade do lucro é medida pelos accruals de capital de giro segundo Dechow e Dichev (2002) e por accruals discricionários com base em Pae (2005); quanto maior a magnitude desses accruals, menor a qualidade dos lucros. O risco sistemático é representado pelo beta do modelo CAPM, calculado em janelas móveis de 24 meses, sempre após a divulgação das demonstrações financeiras anuais.
Os autores constroem duas variáveis centrais. A primeira reflete a qualidade do lucro da própria empresa, medida individualmente. A segunda resume a qualidade média dos lucros de empresas economicamente relacionadas, dentro do mesmo setor, ponderada pelo valor de mercado de cada companhia, formando um padrão setorial de qualidade contábil. O modelo inclui ainda controles clássicos de finanças corporativas, como tamanho, Q de Tobin, grau de endividamento, rentabilidade do ativo, liquidez corrente e um indicador específico que marca o período de maior incidência da pandemia de Covid 19.
Os resultados mostram que o risco sistemático das empresas brasileiras não depende apenas da qualidade de seus próprios lucros. A qualidade dos lucros de empresas pares apresenta associação positiva e estatisticamente significativa com o beta em todas as especificações. Em termos simples, menor qualidade dos lucros das firmas de um mesmo setor está ligada a maior risco de mercado das companhias analisadas. Esse efeito de transbordamento aparece tanto na classificação setorial da B3 quanto na da Economatica, o que reforça a consistência do achado.
A magnitude desse efeito chama atenção. A medida associada às empresas pares exibe coeficientes maiores que os ligados à qualidade dos lucros da própria companhia. Quando a qualidade é mensurada pelo modelo de Dechow e Dichev, lucros de menor qualidade se relacionam a betas mais elevados, sugerindo custo de capital próprio mais alto; já a medida derivada de Pae não apresenta relação consistente com o risco sistemático nos modelos estimados. O estudo indica que investidores dirigem a atenção de forma intensa ao padrão de qualidade do setor como referência na avaliação de risco, em vez de focar exclusivamente nos números individuais de cada empresa.
Entre as variáveis de controle, maior alavancagem e menor rentabilidade relacionam se a risco de mercado mais elevado, em linha com trabalhos que tratam do papel da estrutura de capital e do desempenho na formação do beta. O indicador da pandemia apresenta sinal positivo, sugerindo exposição adicional ao risco sistemático no período de 2020 em diante. A liquidez corrente e o Q de Tobin não se mostraram estatisticamente relevantes, já o tamanho das empresas surge com relação positiva, possivelmente associado a estratégias de crescimento que ampliam a sensibilidade aos movimentos do mercado acionário.
As evidências contribuem com o debate sobre qualidade da informação contábil no mercado brasileiro e apontam efeitos que vão além de cada empresa isolada. A presença de externalidades fortalece a visão da informação contábil como bem público; relatórios de melhor qualidade beneficiam não somente a própria companhia que os produz, mas todo o conjunto de firmas relacionadas. Esse quadro abre espaço a discussões regulatórias sobre padrões mínimos de divulgação, já que a decisão de investir em melhor qualidade informacional ou de assumir postura de carona afeta o risco de mercado de um setor inteiro."
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