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No dia 20 de novembro, o Conselho Regional de Contabilidade do Paraná (CRCPR), por meio da Comissão CRCPR Diversidade e Inclusão, assume um papel de conscientização no ambiente contábil. Em nossas redes sociais, estão sendo veiculadas campanhas com o intuito de promover ações de enfrentamento ao racismo estrutural, visando reconhecer desigualdades e fomentando a construção de uma contabilidade cada vez mais inclusiva e justa. Entretanto, é importante reconhecermos que há muitos desafios para trilhar esse caminho. 


Por que somos convocados a refletir sobre a importância do Dia da Consciência Negra?


A data transcende a celebração para se tornar um ato de reconhecimento e enfrentamento das profundas marcas deixadas pela escravidão em nossa história. O dia 20 de novembro simboliza a memória das batalhas travadas pelos movimentos negros, destacando a figura emblemática de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, cuja trajetória representa a resistência e a busca por dignidade em meio à opressão. Ao observar essa data, não se pode desviar o olhar das cicatrizes ainda presentes na sociedade brasileira, reflexos dos quase quatro séculos de escravidão que moldaram a realidade nacional.

Não obstante os 135 anos desde a abolição formal da escravatura, o racismo persiste, enraizado nas estruturas sociais e institucionais, manifestando-se nas barreiras à igualdade de oportunidades, na disparidade salarial, na tentativa de apagamento da rica herança cultural africana na construção da identidade nacional e na perpetuação do epistemicídio acadêmico, que marginaliza vozes negras. Infelizmente, a Contabilidade não escapa dessa realidade, sendo também enraizada por práticas discriminatórias.

"Quando reconhecemos esse cenário é preciso mensurar e divulgar esses números, de modo que políticas de acesso sejam elementos cada vez mais presentes na nossa sociedade e nas organizações, com o propósito de reverter esse quadro para que de modo contundente exista um caminho para falarmos de inclusão e diversidade", enfatiza o coordenador da Comissão de Diversidade e Inclusão Profissional do CRCPR, Iago França Lopes.

O CRCPR Online entrevistou dois contadores sobre o tema, Nadson Mascarenhas (professor universitário e doutor em Contabilidade) e Daniel Pereira (mestre em Contabilidade e coordenador da Comissão de Diversidade e Inclusão do Conselho Regional de Contabilidade da Bahia), sem se furtar de verdades incômodas que a entidade tomou como missão enfrentar ao se tornar um dos primeiros Conselhos de Contabilidade do país a criar uma Comissão Temática para trabalhar sobre a questão.

CRCPR Online: Como o senhor vê a representatividade negra na Contabilidade do Paraná?

Nadson Mascarenhas: Essa pergunta é muito interessante, pois eu não vejo essa representatividade. Em algumas frentes é notável que exista um esforço, como por exemplo, a figura do professor doutor Iago Lopes na coordenação da Comissão de Diversidade e Inclusão do CRCPR, mas ainda é pouco. Essa representatividade deve ser vista para além da inserção de um profissional negro nestas comissões, ela deve ser uma busca constante por meio de práticas e políticas de inserção destes profissionais nas diversas frentes da Contabilidade do Paraná. Hoje, se perguntarmos quantos profissionais negros já estiveram ou estão à frente das Comissões do CRCPR não conseguiremos citar nem cinco profissionais, isso porque, de fato, nem os conhecemos: “são estruturalmente invisibilizados”. Os atuais e futuros profissionais negros do estado precisam de referências negras à frente destas instituições. A partir desta visualização, irão se motivar para conquistar estes espaços de poder. Ao contrário disso, teremos profissionais negros desmotivados, acreditando que seu único acesso a estes espaços serão pelas frestas abertas por um homem branco. 

Daniel Pereira: Considero que essa representatividade é personificada pelo coordenador, o professor doutor Iago Lopes. Ele traz consigo o significado de representatividade dentro dos espaços institucionais, permitindo aos profissionais visualizar ações a partir dessa perspectiva. O CRCPR ganhou força com a instituição da Comissão de Diversidade e, principalmente, ao delegar a um homem negro, como o professor Iago, a responsabilidade de propor ações e falar em nome do Conselho Regional sobre pautas relacionadas à luta antirracista. As ações até o momento realizadas pelo CRCPR demonstram uma força inicial, impulsionada pela figura representativa do professor Iago, que incentiva e estimula a participação nessas discussões, promovendo perspectivas de mudança de cenário.

CRCPR Online: Quais os desafios enfrentados pela comunidade negra em busca de igualdade e reconhecimento? 

Nadson Mascarenhas: Um dos nossos maiores desafios é combater o racismo estrutural, que está figurado nas diversas instituições, inclusive nos Conselhos de Contabilidade. Deste modo, ressalto aqui que a própria discussão sobre as questões de igualdade racial em novembro é um desafio para nosso reconhecimento. Essas pautas de igualdade racial devem perpassar o Mês da Consciência Negra, sendo pautas de diálogos e letramento o ano todo, principalmente pelo CRCPR. Não vejo ações efetivas ou um esforço do nosso Conselho em promover eventos que estão centrados em pautas raciais. Em seu livro intitulado Racismo Estrutural, o atual ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Silvio Almeida (2020 p.40), menciona que “o racismo institucional se dá com o estabelecimento de parâmetros discriminatórios baseados em raça, que servem para manter a hegemonia do grupo racial no poder. Ainda segundo Almeida “isso faz com que a cultura, os padrões estéticos e as práticas de poder de um determinado grupo tornem-se o horizonte civilizatório do conjunto da sociedade”. O autor destaca a atuação do homem branco em diversas frentes da esfera pública e privada e essa hegemonia invisibiliza a comunidade negra. O desafio também se pauta na aceitação dos nossos corpos pretos nestes espaços de poder. Os desafios até aqui são grandes, inclusive na compreensão de que os brancos também devem combater o racismo. Em seu livro intitulado Pequeno Manual Antirracista, a ativista negra Djamila Ribeiro (2020, p.108) discorre que “as pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente e que produz desigualdades”. Desta forma, a busca de igualdade e reconhecimento se faz quando toda uma classe se propõe a ser antirracista, e para isso é necessário leitura, como as próprias obras da Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Bell Hooks, Michael França, Alysson Portella, e outros. A partir deste conhecimento é que os desafios do racismo serão amenizados. Mas a provocação que deixo é: de fato, você contador ou contadora branca, tem interesse em fazer essas leituras? Ou seu interesse é apenas em continuar imaginando de maneira rasa o que a nossa comunidade negra passa?

CRCPR Online:  Como as empresas e instituições podem contribuir para a promoção da igualdade racial e inclusão de minorias étnicas?

Daniel Pereira: É fundamental, em um primeiro momento, viabilizar orçamento e recursos financeiros. Isso permitirá a proposição e execução de ações por pessoas negras ou vinculadas a essa pauta, conscientes da importância do letramento racial. Destinar recursos para a implementação de políticas e cooperações é crucial para a visibilização e audição dessas pessoas. Além disso, para apoiar a promoção da igualdade racial e de minorias étnicas, empresas e entidades públicas ou privadas precisam criar um cenário convidativo, revisitando práticas e políticas internas, bem como as relações com a comunidade externa. Nesse sentido, é essencial que a revisão seja conduzida por indivíduos pertencentes a minorias étnicas, como a população negra, comunidades quilombolas, indígenas, ciganas, entre outras. A destinação de recursos é crucial para dar protagonismo e voz a essas comunidades, permitindo que contribuam ativamente na criação de narrativas e propostas de políticas, atendendo à demanda crescente por visibilidade no mercado e na sociedade em geral.



Antonio Nadson Mascarenhas SouzaProfessor Universitário
Contador e pesquisador. Possui Mestrado e Doutorado em Contabilidade pela UFPR, especialização em contabilidade Gerencial e Controladoria pela UFBA e graduação em Ciências Contábeis pela UNIFACEAMP.

Daniel Pereira Coordenador da Comissão de Diversidade e Inclusão do CRCBA.
Contador. professor universitário, mestre e doutorando em Contabilidade pela FUCAPE; Co-fundador do Coletivo COLID e do Canal Abelha Contábil. Pesquisador de Gestão e Planejamento Público, além da Diversidade e Inclusão nas organizações.

“De fato, até recentemente as entidades contábeis ignoravam a discussão da questão racial na profissão”, concorda o presidente do CRCPR, Laudelino Jochem. “A recente criação de Comissões de Diversidade e Inclusão em alguns estados e no Conselho Federal de Contabilidade, movimento que conta com o nosso pioneirismo, aqui no Paraná, é um importante passo no sentido correto. É um movimento ainda tímido, mas sentimos que está reverberando de forma muito positiva , acrescenta. 

Ao longo dos dois últimos anos, o professor Iago França Lopes esteve representando o Conselho em diversas frentes de discussão por todo o país, tendo a Comissão CRCPR Diversidade e Inclusão promovido, no início deste ano, um evento de abrangência nacional no âmbito do Sistema CFC/CRCs pra discutir ações para combater a desigualdade na profissão contábil em todos os sentidos, além de ter conduzido uma ampla pesquisa junto aos profissionais da contabilidade do Paraná, para identificar as percepções e obstáculos a serem mitigados e nortear os caminhos para abrir espaço para pessoas negras possam ocupar seu devido espaço e obter o merecido reconhecimento na profissão.

 “Sabemos que o desafio é grande, mas ressaltamos que não se trata de uma atitude condescendente da entidade, mas sim, que é obrigação moral de toda pessoa branca encarar de frente essa verdade e abraçar o desafio de equiparar a representatividade que as pessoas negras têm na população do país à sua proporção dentro da Contabilidade, em termos não só numéricos, mas também qualitativos, em posições de liderança”, finaliza Jochem.

Reprodução permitida, desde que citada a fonte.