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Habilidades políticas em estudantes de Contabilidade, disciplina de comunicação faz diferença?

"Um artigo publicado em 2025 na Revista Mineira de Contabilidade investigou se a disciplina de Comunicação Empresarial contribui, de fato, para o desenvolvimento das habilidades políticas de estudantes de Ciências Contábeis. O estudo foi conduzido por Felipe Stainsack do Rosário, João Victor Pupo dos Santos, Ricardo Adriano Antonelli e Alison Martins Meurer, vinculados à Universidade Federal do Paraná e à Universidade Tecnológica Federal do Paraná. A pesquisa confronta uma expectativa presente em diretrizes nacionais e internacionais, que atribuem à graduação em Contabilidade a responsabilidade de estimular competências interpessoais e de comunicação, em conjunto com a formação técnica.

O trabalho comparou duas amostras de estudantes de Contabilidade de um mesmo estado brasileiro. De um lado, 131 alunos de uma universidade pública federal, expostos a uma disciplina obrigatória de Comunicação Empresarial já no primeiro período do curso, com atividades teóricas e práticas voltadas ao desenvolvimento da expressão oral e escrita. De outro, 133 estudantes de duas organizações de ensino, uma pública estadual e outra privada, analisados em estudo anterior, que não haviam cursado disciplina com foco direto em comunicação, e que responderam ao questionário em pleno contexto de pandemia. A junção das bases resultou em 264 respondentes, com predominância de jovens de 17 a 26 anos, a maioria empregada em organizações privadas.

As habilidades políticas foram mensuradas por meio de um inventário consolidado na literatura, com 18 afirmações distribuídas em quatro dimensões: capacidade de criar e manter redes de relacionamento, influência interpessoal, astúcia social e aparente sinceridade. Os autores realizaram análise fatorial confirmatória para testar a estrutura do instrumento, seguida de testes não paramétricos de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis para verificar diferenças entre grupos, além de correlações de Spearman entre as dimensões. Os indicadores de ajuste da análise fatorial indicaram consistência dos fatores, o que permitiu trabalhar com escores médios para cada dimensão.

Os resultados chamam atenção exatamente por não confirmarem a hipótese mais intuitiva. A exposição à disciplina de Comunicação Empresarial não se associou a níveis mais elevados de habilidades políticas. Em termos de fatores, alunos que não cursaram a disciplina apresentaram maior astúcia social, isto é, relataram perceber melhor sinais, motivações e expressões de outras pessoas, enquanto nas demais dimensões não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos. Na leitura dos autores, isso sugere que apenas incluir uma disciplina de comunicação na matriz curricular não garante, por si só, aprimoramento das habilidades políticas. Outros elementos do contexto acadêmico e social podem ter influência maior, como cultura do curso, metodologias de ensino, ambiente de participação em sala e experiências profissionais.

Quando se observam recortes sociodemográficos, surgem nuances adicionais. Estudantes que se identificam com o gênero masculino relataram maior segurança em sua capacidade de criar vínculos com pessoas consideradas influentes e declararam preocupação mais elevada em ser percebidos como sinceros em suas falas e ações. Os mais jovens, na faixa de 17 a 20 anos, afirmaram dedicar mais tempo e esforço à construção de redes de relacionamento, em comparação com colegas mais velhos. Esses efeitos aparecem em itens específicos do questionário, mas não se traduzem em diferenças consistentes ao nível dos fatores de habilidade política, com exceção da astúcia social na comparação entre as duas coletas.

A matriz de correlação entre os fatores indica que as quatro dimensões caminham juntas: quem se percebe com boa capacidade de networking tende a relatar maior influência interpessoal e astúcia social, e aqueles que se veem como mais sinceros também pontuam mais alto nas demais dimensões. Isso reforça a ideia de que habilidades políticas formam um conjunto articulado de competências e não blocos isolados. Do ponto de vista pedagógico, isso abre espaço para repensar disciplinas de comunicação, aproximando conteúdos de escrita e oratória de situações que exijam negociação, leitura de contexto, construção de confiança e gestão de relações no ambiente profissional.

Os autores destacam que diretrizes da Comissão Nacional de Educação e de organismos internacionais de educação contábil já mencionam, de forma explícita, a necessidade de desenvolver comunicação e habilidades interpessoais na graduação. O estudo sugere que vale a pena revisar o desenho de disciplinas como Comunicação Empresarial, de modo que elas funcionem como laboratório para experiências políticas cotidianas do futuro contador, em vez de se limitarem a aspectos formais de texto e apresentação. A pesquisa também aponta espaço para novos estudos que relacionem habilidades políticas com autoeficácia, desempenho acadêmico e inserção no mercado de trabalho de estudantes de Contabilidade."

Para mais informações, contate os autores

  • Felipe Stainsack do Rosário – felipestainsack@ufpr.br 
  • João Victor Pupo dos Santos – joaopuposantos123@gmail.com 
  • Ricardo Adriano Antonelli – rantonelli@utfpr.edu.br 
  • Alison Martins Meurer – alisonmeurer@ufpr.br


O artigo completo, intitulado “Habilidades Políticas em Estudantes de Ciências Contábeis: como se Diferenciam pela Exposição à Disciplina de Comunicação Empresarial”, está disponível na Revista Mineira de Contabilidade e pode ser acessado através do link 

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